sábado, 19 de maio de 2012

Entrevista Ulisses Pompeu



“Nos bastidores da notícia”
O primeiro entrevistado da nossa série será o jornalista Ulisses Pompeu, repórter do jornal Correio do Tocantins, o mais antigo do município de Marabá. Se você quiser sugerir outros profissionais para serem entrevistados, mande-nos o nome pelo comentário. A ideia é mostrarmos os bastidores da imprensa, como a notícia é produzida.
A seguir, confira nosso bate-papo com Ulisses Pompeu.

1.     Ao longo de sua carreira, você tem atuado em diversos campos do Jornalismo: ora como repórter, ora como assessor de imprensa e, algumas vezes, até na criação. Conte-nos sobre a sua trajetória profissional.
Minha formação acadêmica é em Letras e Artes, pela Universidade Federal do Pará. Em 1996 comecei a dar aulas de Língua Portuguesa e Estrangeira (Inglês), e no ano seguinte passei a atuar como estagiário no Jornal Correio do Tocantins, em Marabá. Fiquei encantado com o Jornalismo e passei a dividir o tempo da sala de aula com o da Redação, por cinco anos. Em 2002 participei de uma pós-graduação em Jornalismo Impresso e Assessoria de Imprensa na Unasp, em São Paulo.
De volta a Marabá, em 2003, retornei ao Correio do Tocantins e fui convidado a deixar a sala de aula para desenvolver um trabalho de assessoria de Imprensa na Secretaria Municipal de Educação de Marabá, onde permaneço até hoje.

2.     Qual foi a pauta mais desafiadora da sua carreira?
Aprecio o jornalismo investigativo e já vivenciei experiências bastante motivadoras, mas vou revelar uma recente. No início deste ano recebi uma informação privilegiada sobre duas licitações de R$ 30 milhões para uso de piçarra nas ruas de Marabá. Comecei a investigar, fui a vários bairros ouvir moradores e compartilhei as informações com promotores, que acabaram efetuando uma busca e apreensão de documentos nas secretarias de Obras e Finanças. Fiz uma reportagem especial sobre o assunto e as investigações continuam por parte das autoridades.
Gosto muito de uma frase de meu escritor e jornalista preferido, Gabriel García Marquez, que diz o seguinte: “Quem não viveu a palpitação sobrenatural da notícia, o orgasmo do furo, a demolição moral do fracasso, não pode sequer conceber o que são. Ninguém que não tenha nascido para isso e esteja disposto a viver só para isso poderia persistir numa profissão tão incompreensível e voraz, cuja obra termina depois de cada notícia, como se fora para sempre, mas que não concede um instante de paz enquanto não torna a começar com mais ardor do que nunca no minuto seguinte”.

3.     No momento da apuração, a quais aspectos o repórter deve ficar atento?
R – O repórter sai da redação com as seis perguntas básicas da comunicação: o quê, quem, como, quando, onde e por quê, mas é preciso entender que cada notícia tem facetas peculiares. Se em uma a ênfase é “o que?”, em outra o fato mais importante pode ser “onde”. Mais do que perguntas, o que ele vê pode ser mais esclarecedor para o leitor do que as respostas do entrevistado.

4.     Qual é o papel da imprensa e do jornalista no desenvolvimento da comunidade local?
Reconheço que a imprensa tem o poder de selecionar e hierarquizar temas, definindo prioridades que serão apresentadas à comunidade. O papel do jornalista é, antes de tudo, informar, evitando colocar à comunidade seu posicionamento particular, enquanto o veículo de comunicação deve manter-se como um espaço de debate e mediação de conflitos.

5.     Como você avalia o jornalismo na região e a forma como os veículos têm se posicionado acerca de assuntos importantes para a comunidade local, a exemplo da recente campanha de criação do Estado de Carajás?
Acho que o jornalismo regional ainda precisa refletir bastante sobre as veredas que tem percorrido e os caminhos que deveria trilhar. Não concordo, por exemplo, com a forma como se expõe a violência na região. Não que eu ache que deveríamos omiti-la, mas poderíamos informar sem manchar as mãos de sangue e, ao mesmo tempo, ajudar a banalizar os crimes.
Na questão específica da criação dos estados do Carajás e Tapajós, percebi que jornais, revistas, televisões, rádios e blogs, em sua maioria, enfatizaram com frequência, em 2011, a realização do plebiscito, mas quase sempre veiculando notícias com a tendência de favorecer a campanha do SIM. Embora eu seja natural de Marabá e desejasse ardentemente o novo estado, como jornalista deveria estar ciente de que a neutralidade precisaria estar presente em todas as reportagens que fiz sobre o tema.

6.     O profissional da área é valorizado na região? Se sim, como isso ocorre?
A valorização do jornalista em Marabá e região é muito relativa. O salário base nas televisões, rádios e jornais escritos está, quase sempre, abaixo do que orienta o SINJOR (Sindicato dos Jornalistas). Alguns poucos profissionais que se destacam acabam recebendo mais pela mesma carga horária de trabalho de outros colegas, mas ainda não é o desejável.

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Entrevistadora: Aretha Souza

Um comentário:

  1. muito bom, gostei das perguntas e do entrevistado, parabéns

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